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Tocantins vive cenário de instabilidade política e econômica, aponta especialista

Sérgio Roberto Jorge Alves explica por que a fragilidade institucional e o avanço judicial devem pautar as próximas eleições

Por: Beatriz Pontes

25/08/202507h30

Em meio às incertezas políticas e econômicas que marcam o Tocantins, o cientista político Sérgio Roberto Jorge Alves alerta para o avanço da judicialização, a fragilidade das instituições e a influência de fatores externos nas decisões locais. Professor do Instituto Federal do Tocantins (IFTO) e mestre em Educação, ele avalia que a desconfiança do eleitorado pode redesenhar o cenário eleitoral de 2026.

Em entrevista exclusiva ao Manchete do Tocantins, Sérgio Roberto analisa a polarização, o peso do Judiciário nas eleições e as consequências do descontrole fiscal. Para ele, compreender esses movimentos é essencial para que sociedade e gestores busquem soluções que fortaleçam a democracia e garantam estabilidade ao estado.

Confira a entrevista na íntegra:

Foto: Divulgação

Foto: Divulgação


A política tocantinense tem sido marcada por escândalos de corrupção nos últimos anos, envolvendo, inclusive, o Judiciário. Como observa essa situação? Isso, de alguma forma, deixa o cidadão descrente das instituições políticas?

As instituições políticas são fundamentais para o apaziguamento da sociedade. Sem elas, nós estaríamos vivenciando uma guerra de todos contra todos. Isso porque você não teria as regras bem estabelecidas, não teria alguém para aplicá-las ou criá-las. Então antes de mais nada, friso que as instituições são necessárias, elas têm que existir de maneira harmônica em um equilíbrio de poderes. 

Neste sentido, ressalto que a corrupção não é institucional, mas é inerente ao ser humano. Esse ato de degeneração do indivíduo se manifesta dentro de um espaço de poder, que pode ser no Executivo, Legislativo ou Judiciário. O que nós temos que primar para que esses indivíduos que possuem predisposição a essa degeneração, é que caso eles a manifestem, que sejam punidos dentro do rigor da lei.

Também não podemos desvincular o Tocantins de um cenário nacional e internacional. Nós estamos falando de um Brasil que vivencia circunstâncias em que pessoas usam as instituições para se locupletar, não sendo um problema apenas do nosso estado.

Como reconstruir a confiança do tocantinense em instituições que repetidamente aparecem envolvidas em escândalos?

A reconstrução é coletiva, ela nunca virá de um salvador ou salvadora. Esse processo nasce das reivindicações de movimentos e da consolidação de direitos. Para que a sociedade sinta essa consolidação, é fundamental que exista confiança nas instituições. 

Portanto, um dos aspectos que nós temos que trazer para a população é a transparência das ações, nas contas públicas, e em todas as perspectivas que são realizadas no âmbito público. É muito importante que nós entendamos o seguinte: não é só transparecer. É preciso também facilitar o acesso das pessoas a essas informações, uma vez que parte da população não possui o letramento necessário para compreender os dados apresentados. 

Dessa maneira, é necessário criar mecanismos de letramento, de acesso e de transparência, mas sobretudo, fazer com que a população através de mecanismos de comunicação, se sinta participante do processo. O sujeito tem que se sentir como parte daquilo porque senão ele vai ficar alheio e só vai procurar as instituições quando precisar.

Há um corporativismo no Judiciário que limita a responsabilização efetiva de juízes e desembargadores?

O judiciário é formado por desembargadores, que geralmente são nomeados a cada período de vacância. Por não passarem por um concurso público, muitas vezes essas pessoas nomeadas possuem vínculos subjetivamente afetivos e que às vezes faz com que elas estejam vinculadas a uma determinada indicação. Dessa maneira, muitas vezes os julgadores são parte participante dos seus próprios pares. O que não deveria ser levado em consideração, uma vez que o julgamento deveria ser imparcial.

O que nós vemos no Judiciário são circunstâncias de uma certa tolerância ou até mesmo um certo processo de punição mais benevolente, o que não acontece na maioria dos casos da justiça comum. Esse é um dos problemas que, quando a sociedade verifica, ela fala: ‘por que que determinado juíz teve como punição uma aposentadoria compulsória?’. Muitas vezes uma pessoa que está sendo réu em um processo comum recebe uma pena muito mais pesada.  Isso ocorre porque, em diversos casos, há um julgamento realizado pelos próprios pares, o que tende a gerar punições mais brandas. No entanto, é essencial destacar que o processo jurídico deve sempre primar pela imparcialidade e, sobretudo, pelo respeito ao devido processo legal.

No Brasil, e também no Tocantins, vivemos uma judicialização excessiva, até o acesso à saúde passa por vias judiciais, o que gera burocracia e demora. Como sair desse ciclo já tão institucionalizado?

Durante um bom tempo as responsabilidades dos poderes Executivo e Legislativo foram negligenciadas, de maneira que a população passou a acionar o poder Judiciário, que passou a se manifestar sob determinados assuntos. Ele não pode ficar inerte e essa tomada de decisão faz com que haja uma protagonização do próprio Judiciário. A maneira de resolver isso seria, ao meu ver, qualificando os poderes de acordo com a sua funcionalidade. O Executivo tem que criar mecanismos, projetos e políticas públicas e o Legislativo está ancorado em legislações que possam atender às demandas da sociedade. Caso isso não ocorra o ciclo de judicialização e protagonização do Judiciário vai continuar ocorrendo. 

Como vê o ciclo eleitoral no Tocantins em 2026, com a sucessão do governador Wanderlei Barbosa? Há favoritismo para algum lado político?

A política faz uma fotografia de uma determinada conjuntura. Se nós fôssemos tirar fotografia nesse exato momento, eu posso afirmar que a tendência é de favoritismo ao atual governador a um cargo no Senado, ou algo parecido. O Wanderlei Barbosa vem de um processo de protagonização e, inclusive, de aproximação com o Governo Federal, então, nesse momento existe uma fotografia que se desenha nesse cenário. 

O que não quer dizer que isso vá ter a mesma perspectiva em 2026, por que nós temos que ver como ocorrerá a definição para o Governo Federal. Nós temos que ver quais são as relações de forças políticas do estado se elas continuarão aliadas ou haverá alguma ruptura e fragmentação e ao mesmo tempo nós temos que ver o sentimento da população em relação a alguns fenômenos que são cotidianos, que vai querer saber sobre inflação, pagamento da conta de cesta básica, valor do combustível, e esse sentimento é que vai refletir na hora do eleitorado. Hoje o cenário é nessa fotografia que dá uma tonalidade de favoritismo, o que não quer dizer que não seja mutável.

Ontem nós tínhamos no mesmo palanque o governador Wanderlei e a Professora Dorinha e hoje eles caminham de maneira independente e estão fazendo as suas articulações. Além de que pode surgir uma terceira via. 

Qual é o significado político da eleição de Nile William para a presidência estadual do PT? A mudança na presidência estadual do PT sinaliza alguma mudança de estratégia ideológica ou política para o partido no estado?

A votação do Partido dos Trabalhadores manda um recado sobre a necessidade de mudanças, de reconfiguração em nível municipalista e ao mesmo tempo de uma discussão de alinhamento verticalizado com o Governo Federal. O Professor Nile tem uma excelente interlocução com a base do presidente Lula. 

Inclusive, ele vem afirmando que tem como projeto transformar o partido em uma legenda voltada não para nomes individuais, mas para o atendimento de demandas e projetos. Então essa essa perspectiva que ocorreu com o PT dá contornos de uma nova dinâmica que o PT vai adotar, inclusive inclusive na questão da federação, ele pode apontar claro uma nova configuração na formação das chapas dentro da própria federação, buscando garantir assim eleição de quadros do próprio PT. 

Sobre as taxações impostas por Trump e possíveis impactos na economia brasileira. Qual é a relevância dessas medidas para o Tocantins e para setores específicos, como agronegócio e indústria local?

Analistas da área econômica e geopolítica têm observado que a taxação tem uma repercussão geral no estado do Tocantins tanto a nível nacional quanto a nível local. É importante destacar que ela se origina de um pressuposto negocial que, em um primeiro momento, não consegue estar de fato na mesa de negociação. Isso porque o presidente Trump traz como reivindicação uma questão jurídica, e o Governo Brasileiro não pode atendê-la, já que os poderes no país são independentes e soberanos, cada qual com sua hierarquia, limites e mecanismos de contrapeso.

Ao mesmo tempo, o governo Trump usa dessa questão jurídica para fazer uma reivindicação econômica, envolvendo temas como o Pix, as terras raras e a agricultura. Diante disso, o governo brasileiro buscou mecanismos para equalizar e modular os impactos da taxação. Até o momento, não houve um recuo nessa taxação, mas como o Brasil implementou um programa de liberação de crédito para os setores mais afetados, como o agronegócio e a área tecnológica

Hoje os setores já estão sendo afetados, mas ainda não houve um impacto devastador. Ainda há uma reserva financeira que esses grupos econômicos conseguem articular, mas sobretudo dialogando com o governo federal, porque é ele que vai fazer a interlocução. 

Como o estado do Tocantins pode se preparar para minimizar os efeitos dessas políticas externas?

Estamos em um cenário em que o Governo Federal busca alternativas para lidar com a taxação. Nesse contexto, ele estabelece contato com países que podem adquirir produtos brasileiros, como os integrantes do grupo BRICS.

Além disso, o governo implementa programas financeiros voltados à isenção ou compensação tarifária para os produtos mais impactados pela sobretaxação. Por meio desses programas, é possível modular os efeitos da taxação: embora não seja possível eliminar completamente os impactos imediatos, o governo consegue minimizar perdas, equilibrar setores e, ao mesmo tempo, buscar novos mercados para os produtos afetados.

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